quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sarau "Feito em Casa"

Origem

Nesses últimos dois anos, tive a oportunidade de conhecer muita coisa boa no meio cristão brasileiro em relação às artes, em especial ao segmento de música chamado de "MPB Cristã". Ao contrário do que pensava antes (já andava desiludido em relação à música na igreja), descobri que tem muita coisa boa sendo feita, e muita gente boa produzindo conteúdo de qualidade. Eventos como o "Nossa Música Brasileira", "Som do Céu" (apesar de ter quase 30 anos, não conhecia), programas como o "Papo e Arte", "Meia Hora com João Alexandre", "Plataforma", "Autorretrato da Música Brasileira", diversos compositores e interpretes (não vou citar nomes para não ser injusto com a quantidade de pessoas boas que têm surgido), pensadores e escritores, blogueiros, além de artistas ligados às artes visuais, teatro, circo, dança etc.

Claro que nesse cenário, nasceu a vontade em contribuir com o fortalecimento desse "avivamento cultural" que têm acontecido em parte da igreja brasileira. De certa forma, esse blog é parte desse desejo de contribuir com a produção de conteúdo relevante, mas ainda queria fazer mais... Um dos desejos que eu tinha, era abrir o espaço da minha casa para realizar alguns eventos e grupos de discussões. Em setembro desse ano (2012), inspirado pelas palestras do L'Abri Brasil, comecei um grupo de discussão sobre filosofia, arte, cultura, ciência e religião na minha casa, apelidado de "Colóquio", com o objetivo de conversar e entender como nos relacionamos com os diversos assuntos que lidamos no nosso dia a dia à partir de uma cosmovisão cristã. Como tarefa prática desse grupo, surgiu a oportunidade de realizar algo que queria fazer há algum tempo: um sarau.

Assim nasceu o sarau "Feito em Casa", que realizamos a primeira edição nesse último sábado (dia 24 de novembro). 

Proposta

A arte não precisa de justificativa. Não precisaria dar um porquê para nos reunirmos e apreciarmos boa arte; ela tem valor em si mesma. Mas com a criação desse sarau, quisemos retomar alguns valores que acreditamos. 

O primeiro é de que “Beleza”, “Verdade” e “Bondade” devem caminhar juntas, e serem experimentas e promovidas de forma única. Beleza não em um sentido puramente estético, mas em um sentido de promover uma ideia, um sentimento, um valor que está além da obra artística. Beleza em fornecer uma nova percepção da realidade, dando um novo significado às experiências ordinárias da vida e, através dessa nova percepção da verdade sobre o fato, promover o questionamento, o amadurecimento, o crescimento, a sabedoria de vida: a bondade.

Só é possível promover uma transformação cultural gerando artefatos culturais. Produzindo arte dentro do nosso alcance, influenciar as pessoas que nos rodeiam com “Beleza”, “Verdade” e “Bondade”. Acima de tudo, a intenção de fazer o Sarau foi promover esses 3 valores através da experiência artística em grupo.

Em segundo lugar, vivemos em tempos em que o sentido de vivência em comunidade tem se perdido. Em especial, na indústria do “Show Business”, a “arte” é produzida pelo viés mercadológico para oferecer um produto e nos satisfazer como indivíduo (sem diálogo comunitário). No passado, a arte era apreciada em casa. Amigos se reuniam para conversar, trocar ideias, e apreciar música, poesia, fazer declamações etc, sem qualquer pretensão comercial , mas pelo simples prazer de produzir arte e compartilhá-la. Procuramos retomar essa cultura, da arte “feita em casa”, entre família, amigos, sem pretensão ou preconceito, mas pelo simples prazer de dar asas à criatividade e produzir algo juntos.

A apresentação

Nessa primeira edição, tivemos participação dos seguintes artistas:



- Midian Maria: acompanhada por sua banda, a cantora Midian Maria (http://www.midianmaria.com.br/) mostrou algumas músicas do seu primeiro disco ("Não Há Nada"), lançado agora em outubro, além de covers de Jorge Camargo e Adhemar de Campos. 


- Marinho Oliveira: violonista erudito de Santos, apresentou alguns de seus arranjos e composições. O Marinho desenvolve um trabalho de ensino de violão, e têm produzido um bom material didático com partituras, apostilas, e vídeos em seu canal do youtube (http://www.youtube.com/user/marinhomarape).







- Laís Venâncio: Cantora e compositora, Laís apresentou músicas de seu primeiro CD ("O Abraço"), que será lançado oficialmente nesse próximo sábado (01/12), além de alguns covers, no formato violão e voz.








- Airô Barros: Multi-artista, Airô (http://www.airobarros.com.br/) cantou, recitou poesia e contou histórias, contagiando simpatia e alegria, características marcantes de sua personalidade.







- Luciano Vilela e Wagner de Morais Pimenta: Membros da banda "Candeeiro" (http://www.bandacandeeiro.com.br/), em uma jam  com a banda da cantora Midian Maria, mostraram algumas das composições da banda Candeeiro, recheadas de brasilidade.




- Victor Machado: Violonista e guitarrista, Victor (https://sites.google.com/site/victormscherrer/) mostrou duas composições suas, sendo uma parceria com o mestre Roberto Diamanso.








- Natália Osis: Fotógrafa e artista, Natália (http://fsentimentoepoesia.blogspot.com.br/) expôs algumas de suas fotos e trabalhos artísticos, além de ter dado um toque especial na decoração do ambiente.







Adicionar legenda
- Célia Bertolini: Entusiasta da cultura italiana e cozinheira de mão cheia, Célia deu um tempero especial ao sarau com comidas de origem italianas e trabalhos de enfeites feitos de comida.








Além das apresentações, O Sarau teve um espaço com livros de diversos tipos de artes, cidades culturais e museus, disponibilizando uma experiência experiência cultural mais completa para os momentos de pausa entre cada apresentação.

Para você que perdeu esse evento, algumas fotos do dia:





























Abraços,

Renan Alencar de Carvalho


*** Fotos de Priscila Vieira e Eliézer Venâncio, retiradas de seus perfis da rede social Facebook.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Em Busca de uma Teologia da Estética!

Fonte: Blog Fiel.



Em Busca de uma Teologia da Estética!

Pr Luiz Sayão


A fé cristã teve uma trajetória traumática com as manifestações artísticas. Desde o início do cristianismo a relação entre fé e arte sempre foi de suspeita. Por que será que isso aconteceu? De onde veio essa ruptura? Tem explicação?
Os judeus e os primeiros cristãos sempre contemplaram as manifestações artísticas dos pagãos e dificilmente dissociavam uma coisa da outra. A arte dos egípcios, babilônios, filisteus, gregos e romanos estava repleta de idolatria e de imoralidade. Não é difícil entender a repulsa de judeus e cristãos a tais manifestações.
Além disso, foi o próprio Deus que proibiu a confecção de imagens de escultura (Êx 20.4-5) como objeto de culto. O mandamento foi levado a sério pelos judeus. Não temos quase nada de esculturas hebraicas dos tempos bíblicos. No cristianismo primitivo a tendência prosseguiu. Todos sabem que a controvérsia das imagens foi um dos principais problemas da história da igreja. Até hoje católicos e protestantes têm linhas demarcadas em torno da questão.
Na área da música, as coisas também foram complicadas. O Novo Testamento fala pouco de música cantada na igreja. A igreja cristã sempre temeu que a música se tornasse um ídolo que prejudicasse a adoração genuína. O canto gregoriano tornou-se um estilo musical que evitava os desvios da alma. O problema persistiu na época da Reforma. O zelo por uma espiritualidade genuína e o medo da idolatria muito limitaram a expressão estética. Instrumentos musicais foram vistos com desconfiança. Os calvinistas mais radicais mostraram essa ruptura. Houve até mesmo uma destruição em massa de órgãos na Escócia. Graças à tradição luterana alemã, a música protestante teve força cultural e depois foi exportada para outros ambientes. O fato é que essa tradição de reticência com a arte teve efeito no evangelicalismo anglo-saxão e chegou também ao Brasil.
Em terras brasileiras a arte entre evangélicos teve outro agravante. Como era proibido construir templos no início da história protestante, nossos templos pareciam “caixotes da fé”, com pouquíssima referência estética. Além disso, por sua identidade anti-católica, símbolos como a cruz entre outros também foram abolidos. Em resumo, nossa herança estética é mínima. Por que tão grande divórcio?
Antes de iniciarmos qualquer preteritoclastia, é preciso observar que o problema da ruptura com a arte surgiu da leitura da própria Bíblia.
Quando lemos a gênese da arte nas Escrituras, ficamos assustados. Tudo começa com a família de Caim. A arte começa num ambiente anti-Deus, com características más como independência de Deus, imoralidade e violência. O toque final da estética de Caim aparece na figura da Cidade, resumo daquela civilização anti-Deus:
19 Lameque tomou duas mulheres: uma chamava-se Ada e a outra, Zilá. 20 Ada deu à luz Jabal, que foi o pai daqueles que moram em tendas e criam rebanhos. 21 O nome do irmão dele era Jubal, que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. 22 Zilá também deu à luz um filho, Tubalcaim, que fabricava todo tipo de ferramentas de bronze e de ferro. Tubalcaim teve uma irmã chamada Naamá.23 Disse Lameque às suas mulheres: “Ada e Zilá, ouçam-me; mulheres de Lameque, escutem minhas palavras: Eu matei um homem porque me feriu, e um menino, porque me machucou. (Gn 4.19-23 – NVI)
Mas a pergunta que devemos fazer é: será que o início da estética compromete plenamente sua manifestação? O problema está na arte ou no coração do homem? Deus criou tudo bom e bonito (cf. o hebraico: Gn 1.31). Na verdade, Deus é o Senhor de toda arte! Ele é o Deus da estética. Por isso, vejamos outros enfoques estéticos nas Escrituras. Em Êxodo 31.1-7 (NVI), há um texto bíblico surpreendente:
1 Disse então o Senhor a Moisés: 2 “Eu escolhi Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, 3e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística 4 para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, 5 para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal. 6 Além disso, designei Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã, para auxiliá-lo. Também capacitei todos os artesãos para que executem tudo o que lhe ordenei: 7 a Tenda do Encontro, a arca da aliança e a tampa que está sobre ela, e todos os outros utensílios da tenda…
Como pode o Deus que proibiu “fazer imagens de escultura” ordenar a confecção artística do tabernáculo (Êxodo 25 a 40), o que incluía a imagem de dois querubins! E o texto ainda diz que a capacidade de criar e expressar o Belo veio do Espírito de Deus! Começa aqui uma história de redenção da arte. Deus condenava a idolatria, mas nunca foi seu objetivo destruir a própria arte.
Prosseguindo pela Bíblia, vamos encontrar arquitetura e estética espacial no templo de Salomão, música muito elaborada nos Salmos e em outras partes, muita poesia cuidadosamente trabalhada em grande parte de toda a Bíblia. Há inclusive uma espécie de encenação dramática nos profetas (Ezequiel). Deus é o Senhor de toda arte!
Mesmo que a motivação de muitos cristãos tenha sido sincera, muito da teologia da estética presente na Bíblia não foi percebido por eles. Por isso, herdamos um cristianismo de expressão tão sisuda, e às vezes melancólica, que tem dificuldades de dialogar com a estética e com a cultura nacional contemporânea.
A questão é muito séria porque a arte tornou-se fundamental para a sociedade contemporânea. É o principal meio de veiculação de conteúdo. O pensador Francis Schaeffer criticou a atitude de afastar-se da arte comum do evangelicalismo americano no início do século 20. Isso foi mortal para a igreja, pois a música e as artes cênicas tornaram-se monopólio do pensamento secular. O conservadorismo entregou as novas formas de expressão ao mundo não cristão, facilitando a formação de uma geração secular e pagã! Por isso, a igreja precisa redescobrir o valor e o poder da arte. Mesmo que seu início na história bíblica seja maculado e que seu transcurso histórico esteja muito marcado pelo pecado, na Bíblia Deus redime a arte, para a sua honra e sua glória. Hoje, é possível vermos criações artísticas que surgiram longe dos arraiais da fé, serem usados por Deus para o benefício do reino. O que era para o mal, tornou-se bem! Deus dá um nó no Mal!
A vitória de Deus é extraordinária. Vale observar que o Apocalipse termina a Bíblia cheio de arte e cheio de muita música. Até a Cidade, símbolo da arte e do progresso do mal, é transformada em bênção (Ap 21.1-4). Que Deus use cada Bezalel e Aoliabe de hoje. Nunca a relevância do artista cristão foi tão importante na história!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012