sexta-feira, 20 de julho de 2012

Conteúdo Além da Forma - Milagres

Em uma época em que está na moda cantar que o "MEU milagre" vai chegar, e que o relacionamento com Deus é professado como uma criança egoísta que apenas sabe dizer que "Eu Quero", compartilho esse letra do Silvestre Kuhlmann:

"Eu vejo milagres a todo o momento
Se meu coração for grato e atento;
O pão sobre a mesa, um filho que chega,
O sol e a certeza do amor de Deus.
É como se eu fosse, de fato, uma ilha
Debaixo de um céu de graça,
Plantada em mar de milagres.
Eu vejo milagres na minha família,
Na vida e na casa de meus amigos;
No corpo e na alma de meus irmãos
Se meu coração tiver olhos pra ver.
Eu vejo milagres por todo lugar,
Eu vejo milagres ao ir e ao chegar,
Eu vejo milagres da graça de Deus,
Eu vejo milagres em volta dos Seus."

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Conteúdo Além da Forma - Sóbrio Louvor


Sóbrio Louvor (Diego Venâncio)

"Receba Senhor 
um canto de sóbrio louvor 
um canto que é feito novo 
e exulta o teu grande amor 


Nossa emoção 
fruto da noção da sua grandeza 
conclusão da nossa pobreza 
e do imerecido amor 


Te rendemos glória Senhor 
pelo o que fizeste em nosso viver 
te rendemos glória Senhor 
gratos por podermos entender"


Eu Recomendo - Tiago Vianna

Retirei essa crítica do portal da Ultimato.



Para apreciar: “Um minuto de silêncio”





É possível encontrar artistas que se preocupam com estética e mensagem na Igreja evangélica brasileira. Procurei por lançamentos de CDs que chegaram às minhas mãos e elegi “Um minuto de silêncio”, de Tiago Vianna, para analisar a música e seu relacionamento com as letras. Para me ajudar nesta caminhada, convidei o amigo e colega de trabalho Filipe Fontes. Decidimos nos ater apenas a três canções que achamos mais expressivas dentre as onze canções do álbum.
 
“Um minuto de silêncio” possui uma considerável diversidade temática. As letras são, em geral, muito ricas, tanto em termos estéticos quanto em profundidade de conteúdo. Para nós, a poética é o ponto alto deste trabalho.

Faixa 3 - (In) Vento (Letra: Gladir Cabral/ Música: Tiago Vianna)
 
O vento passeia livre pelo mar
E ouço a sua voz, o seu cantar
Mas... de onde vem?
E agora pra onde vai?
É certo, assim é quem nasce outra vez
É vento, soprado pelos lábios seus
 
Pode muito bem chegar
Para, então, partir de novo
Pode se fazer parar
Pode se fazer renovo
Floração do intento
Viração do invento
 
Voar... voar... por mares e por campos abertos
Voltar.. voltar: o longe é perto, sempre
Pousar... pousar na frágil segurança do afeto
E ver o sol... nascer de novo no amanhecer
 
O jogo de palavras do título possibilita dupla interpretação. Se “in” for encarado como a preposição inglesa [em, no], somos remetidos ao “vento” como condutor. Se for visto como formador da palavra “invento”, somos remetidos à novidade de uma vida conduzida pelo Vento. Como cremos que, em se tratando de arte, não precisamos optar por uma delas exclusivamente, poderíamos dizer que, partindo da metáfora usada por Jesus na conversa com Nicodemos [Jo 3], “(In) Vento” é uma singela descrição da ação inventora do Vento (o Espírito Santo de Deus), e da experiência de construção e liberdade que experimentam os que são inventados por Ele. 
 
A música serve bem à letra. Na primeira estrofe, nas frases “Mas de onde vem?”/ “E agora pra onde vai?” há um jogo com a harmonia em que o primeiro acorde leva a um lugar inusitado, caracterizando bem as perguntas. 
 
Na segunda estrofe, a sucessão de acordes não tem uma tonalidade definida, o que liga a música à ideia de movimento e atitude encontradas na letra através das palavras “chegar”, “partir”, “parar”, “renovo”, “floração” e “viração”.
 
Na terceira estrofe, onde a letra cita os “mares e campos” e apresenta as ambiguidades “longe é perto” e “frágil segurança”, os compositores optaram por substituir o acorde que geralmente é mais utilizado como passagem para o acorde principal, trazendo mais uma vez a proximidade entre música e letra. A frase final utiliza um acorde fora da tonalidade principal, um “invento” de uma tonalidade ainda não utilizada nesta canção, o que ilustra bem a frase “E ver o sol nascer de novo no amanhecer”.

Faixa 5 - A moça (Letra: Silvia Mendonça/ Música: Tiago Vianna) 
 
A moça na janela vê o que? A moça abre a porta, para quem?
E quando acende a chama do fogão a moça está só...
 
A moça pega a caneta ela falha
Procura um papel em branco
E quando põe na mesa um prato
A moça está só
 
A moça abre o livro e imagina, a moça liga o rádio e desliga
E quando abre a porta o jornal está no chão e a moça está só
 
A moça olha as horas que não passam
A moça conta os anos, eles voam
A moça pinta os seus olhos de negro, a moça está só
 
A moça sai à rua e respira, a moça toma chuva, se alivia.
Passeia com os olhos borrados, é claro: não se importa
Parece que está só...

Uma vívida descrição da solidão! A composição da melodia e as escolhas para o arranjo de “A moça” foram muito acertadas. De tão pictórica nos remete às cenas de um filme. 
O aspecto intrigante da música fica por conta do “q” de dúvida quanto à continuidade da solidão da moça. A constatação da solidão sempre presente ao longo do poema – “a moça está só” – abre espaço para uma frase final construída em tom de incerteza: “parece que a moça está só”. Este tom de incerteza, também impresso pelo último acorde que se alonga, ao mesmo tempo em que não transmite uma sensação de “final”, faz adentrar à canção uma réstia de redenção, possibilitando nascer a esperança. Esta ideia de esperança, reforçada pela sequência de acordes da última estrofe, encontra eco na canção seguinte, “Na varanda”. Possivelmente Tiago Vianna e Maurício Caruso (que assina a produção musical) tenham pensado nessa adequação de mensagem entre as duas canções ao escolher a ordem do repertório no CD.

Faixa 6 - Na varanda (Mário Coutinho/ Tiago Vianna)
Esperança na varanda brinca
Tão risonha escarafuncha
A vida de quem cochila
Esperança na varanda espera
A chuva que vem longe
Cinza, triste e vagarosa. 
 
Esse campo perigoso
Onde tudo tem seu risco
Visgo de tristeza pega
Seus maus tratos trazem frio 
Vida, quintal de criança.
Há que se saber dos riscos
Há que se saber dos cacos
Riscado do giz de barro
 
Esperança na varanda grita
Acorda a alma esquiva
Alma de quem não dá bola
Esperança na varanda escuta
Os lamentos e as rimas
Dos poetas tão cansados
Dos poetas tão escassos
 
Vida, pátio de escola
Tudo nela vai, decola
Voo certo na subida
Em busca do grande azul
Vida é como folha de livro
Vida é verso bandido
Vida é verso em reverso.

O tom de tristeza e incerteza de “A moça” dá lugar a um tom de alegria e esperança em “Na varanda”. Aliás, nesta letra a esperança é personificada, e a ela se atribui ações como brincar, esperar, gritar e escutar. Isto reforça a ideia de esperança como tema da canção. 
 
O efeito inicial e a execução da guitarra desta faixa são muito parecidas aos da faixa “(In) vento”. Teria sido proposital a junção de “vento” e “varanda” a partir desta introdução? 
 
A letra é uma reflexão sobre a vida e reflexões esperançadas sobre a vida são cada vez mais incomuns. É interessante perceber que a esperança apresentada não é ingênua, mas refletida. Ela se fundamenta no fato de que a vida é oportunidade de aprendizado e crescimento. Esta concepção é apresentada metaforicamente nas comparações da vida com quintal de criança, pátio de escola e folha de livro, e confirmada repetidas vezes pela frase final: “Vida é verso em reverso”. O arranjo traz uma ideia de boa expectativa, de espera otimista. 
 
Nas frases “Há que se saber dos riscos”/ “Há que se saber dos cacos”/ e mais à frente “Vida, pátio de escola”, possivelmente há uma homenagem ou citação de “Coração de Estudante”, de Milton Nascimento e Wagner Tiso:
 
Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
 
A música é curta e sem repetições, com exceção da frase final, o que a transforma quase em um manifesto de uma visão de mundo que leva em conta a esperança.
Indicamos a você, leitor dessa coluna, quebrar o silêncio com o novo disco de Tiago Vianna. Caminhemos!
 
Sérgio Pereira - músico, educador e revisor pedagógico de História do Sistema Mackenzie de Ensino. Seu trabalho musical mais conhecido é o Baixo e Voz, que já conta com 21 anos, quatro CDs e um DVD e CD ao vivo a serem lançados em 2012. Mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, sua dissertação versa sobre o compositor Lenine e o hibridismo musical brasileiro. Colunista das revistas e sites Bass Player Brasil, Ultimato e Cristianismo Criativo.

Filipe Costa Fontes - bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano José Manoel da Conceição, Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção, mestre em Teologia Filosófica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Consultor Teológico Filosófico do Sistema Mackenzie de Ensino e professor do Departamento de Cultura Geral no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição.






terça-feira, 29 de maio de 2012

Luiz Saião - Louvor com Sobriedade

Fonte: Cante as Escrituras
Não é possível que se possa louvar a Deus com entendimento usando composições pobres e
vazias de conteúdo
Twittar essa frase – isso, quando as letras não contêm erros teológicos e até heresias.”
Vivemos na era da música digital. E os muitos sons nos fazem delirar. Foi muita mudança tecnológica, rítmica e cultural que revolucionou o cenário evangélico na área de louvor e adoração. Diante do novo contexto, as opiniões se dividem. O louvor contemporâneo é melhor do que o antigo dos hinários? As mudanças foram para bem ou para mal? Durante décadas, as igrejas tradicionais – presbiterianas, batistas, metodistas – usaram quase que exclusivamente os hinários, com suas composições centenárias. Com o tempo, os clássicos do cancioneiro protestante foram sendo deixados de lado em benefício de cânticos chamados modernos. Mas por que tantos belos hinos caíram em desuso?
Algumas das principais razões podem ser aqui mencionadas e enumeradas. Em primeiro lugar, as composições tradicionais eram, em sua maioria, estrangeiras – alemãs, inglesas, americanas. Com o tempo, aqueles ritmos e melodias foram causando estranheza aos ouvidos brasileiros, acostumados a estilos musicais mais populares. Além disso, hinos célebres como “Óh quão cego andei” e “Vencendo vem Jesus” eram maciçamente executados, gerando certo cansaço. As novas gerações não conseguiram adaptar-se às canções mais antigas e buscaram novas formas de expressão musical. Isso sem falar em versos de difícil compreensão para os jovens. Um desses hinos, por exemplo, dizia em sua primeira estrofe: “Numa orgia nefanda, o rebelde Belsazar (…)”.
A grande revolução litúrgica que pegou desprevenidos os grupos tradicionais e pentecostais clássicos no Brasil teve lugar a partir da década de 1950. A chegada da Igreja Quadrangular e o surgimento de denominações como O Brasil para Cristo, a Igreja de Nova Vida e a Deus é Amor mudaram o perfil evangélico nacional. Foi por meio da nova onda carismática que o cenário mudou. E uma das transformações mais notáveis foi justamente o rompimento com a tradição musical protestante. Surgiram hinetos mais simples e curtos, repetitivos, acompanhados de palmas e instrumentos antes considerados “profanos”, como guitarra, bateria e órgão elétrico. A parte do culto dedicada ao louvor musical deixou de ser marcada pela reflexão e assumiu um caráter mais corporal e efusivo. E estas canções traziam como novidade os ritmos genuinamente nacionais, como samba e marchinha. Afinal, as novas igrejas eram autenticamente brasileiras – logo, não tinham necessidade de honrar uma tradição estrangeira.
Mas o que dizer dessa nova realidade? Os mais tradicionais, claro, afirmam que a qualidade musical diminuiu (o que é fato) e que o repertório evangélico moderno não é próprio para um culto verdadeiro. No entanto, é preciso ressaltar aspectos positivos da nova tendência. Um deles é a alegria comemorativa. Enquanto os tradicionais cantavam “Bendita a hora de oração” de olhos bem fechados, em contrição, os novos grupos começaram a fazer a festa do louvor, pulando, movendo braços e pernas e até dançando. Tudo com muito apelo para o contexto que a fé cristã assumiu em território brasileiro. A adoração meditativa cedeu lugar a uma adoração contemplativa. Em vez de enfatizar os feitos de Deus ou elementos teológicos importantes, ressalta-se muito a transcendência divina, que o fiel é estimulado a buscar e a sentir.
Uma particularidade dos novos cânticos é a forte ênfase no Antigo Testamento, enfatizando uma idealização de Israel. Querendo expressar uma fé mais concreta, os novos grupos encontraram ali fonte de inspiração, muitas vezes sem qualquer transposição cristã. Além disso, especialmente sob a influência da escatologia pré-milenista, tomou-se o povo de Israel como modelo – e o resultado é uma apropriação de temas e elementos tipicamente judaicos, como o uso de símbolos rituais como o candelabro, o shofar e vários outros.
No entanto, o novo cenário litúrgico também mostrou diversas fragilidades e problemas. Desde os dias do louvor ao som do iê-iê-iê dos anos 1960 até a chamada adoração profética, muitos problemas apareceram no contexto da Igreja contemporânea. Um deles é a introdução de heresias. Como são compostos por gente sem boa formação teológica, muitos cânticos afirmam verdadeiras tolices, como “Eu navegarei no oceano do Espírito”, ou “Casa de Deus, onde flui o amor”, etc. Infelizmente, muitas igrejas cantam diversos cânticos apenas porque gostam da melodia, sem observar se a letra tem ou não o mínimo fundamento bíblico e teológico.Twittar essa frase Ainda que não seja o caso de todos, há cânticos que não chegam a dizer nenhuma heresia – simplesmente, porque não têm nada a dizer! Twittar essa frase São peças que trazem frases simplistas, quase sem nenhum conteúdo. Essas músicas geralmente possuem bastante ritmo e algumas poucas frases, que são repetidas continuamente.
Não é possível que se possa louvar a Deus com entendimento usando composições tão pobres e vazias de conteúdo.Twittar essa frase Além disso, devemos reconhecer que, se queremos oferecer um louvor a Deus, precisamos fazê-lo com mais qualidade. Hoje, todos têm consciência de que é possível e perigoso fazer manipulação emocional usando determinados ritmos. Quando momentos de louvor chegam a quase uma hora de duração, repletos de cânticos eufóricos, o público fica emocionalmente desequilibrado. Submetidos a uma verdadeira catarse musical, muita gente já nem é capaz de fazer uma crítica do que está acontecendo. A verdade é que, em muitos casos, a repetição de cânticos torna-se quase hipnótica. O público fica eufórico – às vezes, até com certa demonstração de sensualidade – e acaba formando uma massa de pessoas altamente manipulável. Alguma coisa está errada neste tipo de louvor.
Há uma crença generalizada de que podemos cantar todo e qualquer texto bíblico, já que é a Palavra de Deus. Isso é um engano – e é exatamente nesse ponto que fica evidente a necessidade do estudo da hermenêutica (interpretação bíblica). Não se pode, simplesmente, cantar qualquer coisa, ainda que sejam versículos bíblicos. Às vezes, o trecho musicado traz uma idéia incompleta, uma teologia ultrapassada pelos ensinos cristãos ou declarações que precisam ser corretamente interpretadas. Ora, há músicas hoje que estimulam o crente a perseguir os inimigos e a destruir os adversários – práticas de acordo com o contexto das guerras de Israel, mas totalmente opostas ao que Jesus ordenou – perdoar e amar os que nos opõem, conforme Mateus 5.
Diante dessa nova realidade da Igreja, é importante ter bom senso e equilíbrio. É claro que precisamos de uma renovação permanente de nossa hinódia. No entanto, não se pode mudar por mudar, prejudicando a própria fé cristã. Por isso, louvemos ao Senhor com sensibilidade, mas também com bastante sobriedade.
Fonte: Revista Eclésia.