quarta-feira, 23 de maio de 2012

Conteúdo Além da Forma - Allambra

Música: Gerson Borges
Letra: Gladir Cabral

"Queria tocar os sinos
Da majestosa catedral
Pensei em compor os hinos
Pintar as faces do vitral
Mas tu me fizeste olhar o chão
E repintar os rodapés
Silenciar em meio à sombra do jardim
E foi assim que eu aprendi
A aguardar o tempo bom
A viração do vento sul
O recomeço da estação
Para plantar, para regar, para podar
Para sonhar o renascer da floração
Perto da terra, umedecer
Em meio à horta, serenar
Tua vontade obedecer


Um dia a tristeza disse
Que eu nunca mais seria alguém
Melhor que eu me demitisse
Pulasse deste velho trem
Mas tu me fizeste olhar o céu
E eu comecei a ver melhor
Ver teu amor a envolver a minha dor
E me fazer voar além
Da torre desta catedral
Ares de Allambra, luz e bem,
Logo depois de Portugal
Beira de rio, onda do mar, vento mais frio
Luz do luar, perto da Estrela D’alva
Pra ver a Terra amanhecer
E com o sereno repousar
Onde tua mão me colocar"





Poeta é Deus

Poema de Gladir Cabral


"Eterno é Deus,
Tudo o mais é uma folha de alfazema
Que o vento leva no doce perfume da açucena,
Águas passadas nas longas braçadas do moinho,
Leve desenho na pena de um livre passarinho.


Eterno é Deus,
E o resto é a sombra de uma nuvem
Sobre a corrente das águas que de repente surgem
E prontamente se escoam na sequidão da terra,
Um pensamento, uma flecha do arqueiro, quando erra.


Poeta é Deus,
Sou apenas o verso de um poema.
Ele é palavra, eu sou o desejo de um fonema,
Verso branco, breve
À espera do seu tema.


Eterno é Deus,
Tudo o mais é uma gota de sereno
Que de manhã cobre a folha da grama no terreno.
Ao meio-dia é apenas lembrança pouca e vaga,
É trilha incerta, é uma estrada deserta e ensolarada.


Poeta é Deus,
Sou apenas poeira do caminho.
Ele é o rio que me leva assim, devagarinho,
Pela vida afora, nunca mais sozinho."

domingo, 20 de maio de 2012

O Gueto Gospel

Como já pregava Gil Vicente, "Rindo se Corrigem os Erros"! Boa crítica do Marcos Botelho:


Conteúdo Além da Forma - 01

Durante muito tempo, as músicas tocadas e aceitas nas igrejas protestantes foram os hinos. No Brasil não foi diferente. Trazida pelos missionários norte-americanos e europeus, as igrejas protestantes mantiveram a forma musical dos seus países de origem. No entanto, o fato é que a forma musical dos hinos não se adequa à cultura musical brasileira e em meados dos anos 70, a forma da música tradicional das igrejas brasileiras começou a ser rompida, surgindo composições com novos ritmos. O grande marco dessa música foi o disco "De Vento em Popa" dos Vencedores por Cristo, gravado em 1977 (ouça a música tema "De Vento em Popa"). Sem querer ser saudosista (até porque eu nem era nascido), mas foi uma época muito produtiva para a música cristã brasileira. Nomes como Sérgio Pimenta fizeram canções belíssimas, tanto pela musicalidade quanto pelas letras profundas, como "Resposta Certa", "Você Pode Ter" e "Fontes".

No entanto, a partir dos anos 80,  encabeçado pela igreja "Renanscer em Cristo", surgiu o movimento "Gospel" no Brasil, marcados pelo rock e o pop, de forte influência da música norte-americana. Com uma abordagem mais mercadológica, a industria fonográfica "gospel" se consolidou criando o comércio e a mídia de massa cristã.

Claro que coisas boas aconteceram nesse tempo, bandas como "Oficina G3" e "Resgate" me influenciaram no começo da minha caminhada cristã. Abriu-se espaço para novos ritmos, como o rock, pop, reggae, ska, eletrônico etc, e isso foi bom. Novas linguagens foram adotadas, atingindo novos públicos. Mas o movimento gospel também trouxe efeitos ruins para o cenário da música cristã brasileira. Não vou entrar na discussão do "por trás" da questão mercadológica, mas vejo pelo menos dois efeitos danosos:

O primeiro é que novamente voltamos a ser prisioneiros do pensamento e da cultura estrangeira. Não sei ao certo o autor, mas existe uma frase que fiz que "Não existe nada mais brasileiro do que querer ser igual ao norte-americano", infelizmente essa frase contém muito de verdade. Idolatramos tudo que o que vem do norte, muitas vezes sem um mínimo de filtro, e deixamos de valorizar o que é nosso. A música brasileira é riquíssima em todos os sentidos, uma fonte inesgotável de beleza e inspiração. Perdemos muito dando atenção somente ao que vem da terra do Tio Sam.

O segundo ponto é que, ao meu ver, na busca pela forma, o conteúdo foi deixado de lado. Claro que existem contextos onde a música não precisa ter um conteúdo profundo, nas no caso da música cristã, mais importante que a forma ou ritmo em que se está cantando é o conteúdo da mensagem que se está cantando. A música evangélica hoje, tem se tornado cada vez mais rasa, pobre, medíocre... para não dizer herege. Canta-se qualquer besteira rimando Jesus com Cruz, e as pessoas pensam estar cantando para glória de Deus.

Caros leitores, não se enganem, "Voltemos ao Evangelho" e "Cantemos as Escrituras" (dois trabalhos excelentes nessa proposta e valem ser conhecidos). É ótimo ter liberdade para escolher a forma, mas forna sem conteúdo não representa nada para nossa fé. Precisamos entender que bondade, beleza e verdade devem andar juntas, e que nossa música deve refletir a beleza do criador, seu caráter e sua palavra.

Sob essa perspectiva, vou começar a postar algumas músicas que tem tocado meu coração em atingir e elevar minha alma ao criador, com beleza e com verdade.

E para começar, um soneto do CD "Leve é a Pena", do Silvestre Kuhlmann:

No Oculto de seu quarto

"No oculto de seu pequenino quarto
Portas fechadas, sem fazer alarde,
O moço presta culto; o peito arde.
Busca da Água e do Pão que o torna farto.
E diz ao seu Amado: Não me aparto
Deste lugar quer seja cedo ou tarde.
Nada me impedirá que eu Te aguarde;
Se não vieres a mim, daqui não parto.
De que me vale ter todas as coisas?
A fome em minha alma não se mede.
Virás pra saciar a minha sede?
Tesouros vãos se vão.São ventos, brisas,
Quero buscar primeiro a Ti e ao Reino;
No qual quero chegar feito menino."








abraços,

Renan Alencar de Carvalho

Teoria Musical - Parte 1 - Introdução

Recentemente minha esposa me pediu para ensiná-la teoria musical, e pensei em fazer isso de forma que pudesse ser relido e compartilhado, como uma apostila on-line. Portanto, escreverei uma série de posts sobre teoria musical, e espero que possa ajudar a quem quiser aprender alguma coisa também.

Introdução

"Como Deus, eterna é a Canção" (Mario Valladão).

A música faz parte da história da humanidade. Em todos os povos, de todas as culturas, existe alguma forma de manifestação musical, seja para o entretenimento, para rituais religiosos e sociais ou para a apreciação estética e artística. A verdade é que a origem da música se confunde com a própria origem da humanidade. Ela sempre esteve presente na nossa história e assim permanecerá, provavelmente, pela eternidade. Pensando nisso, Mario Valladão sabiamente compôs uma música que diz que "Como Deus, eterna é a canção".

A música provavelmente começou com a imitação da natureza. Ao ouvir a beleza dos cantos dos pássaros e de outros animais, compostas pelo supremo artista, foi natural ao homem imitá-los. Dentro da narrativa bíblica, a primeira citação da música é sobre Jubal, tataraneto de Adão, que foi o pai dos que tocavam kinnôr (arpa) e ûgâb (flauta). Com a evolução do tempo, os instrumentos e a música foram sendo aprimoradas, e começou-se a ter a necessidade de se registrar o que estava sendo tocado/cantado, de modo que a música pudesse ser lida e re-executada posteriormente.

Os primeiros ensaios para uma notação musical começaram na idade média. Para se registrar as melodias dos cantos gregorianos, foi desenvolvido um sistema de notação por  neumas, onde cada figura representava um conjunto de notas, uma pequena frase musical, mas sem muita precisão. Nesse momento da história, ainda não existiam as notas definidas (como conhecemos hoje). Intuitivamente, usava-se a sequencia de notas que hoje conhecemos por escala maior, e as variações dela começando por diferentes pontos da escala (o que hoje conhecemos por modos gregos), porém não existiam os conceito de tonalidade e harmonia.

Por volta do século X, o monge italiano Guido d'Arezzo nomeou as notas, baseado em um cântico à São João, onde cada frase se iniciava em uma nota da escala maior. Para dar o nome as notas, Guido utilizou as primeiras sílabas de cada frase, como mostrado abaixo:


Ut queant L'axes
Ressonare fibris
Mira gestorum
Famule tuerum
Solve polluti
Labii reatum
Sanctu Ioannes

Com o tempo, "Ut" foi substituído por "Do"para facilitar a pronúncia com uma sílaba terminada em vogal, formando assim as notas utilizadas até hoje na música ocidental: (Dó-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá-Si). No sistema de notação de Guido, era utilizado um tetragrama onde as notas era escritas, o pentagrama (conjunto de 5 linhas utilizado até os nossos dias) surgiu em meados do século XII.

Com o passar dos séculos, a notação musical foi sofrendo diversas evoluções, conforme a necessidade e o contexto musical. Além da partitura (notação mais completa), existem outros meios de notação como tablatura (para instrumentos de corda, como o violão e o baixo) e a cifra, amplamente utilizada na música popular, que se preocupa em registrar apenas os acordes em que a música se baseia.

Por que estudar teoria musical?

Dentro de nossa cultura musical brasileira, onde se predomina a música popular, é comum encontrar pessoas que "tocam de ouvido", mas não conhecem teoria musical. Com isso, muita gente acha desnecessário estudar teoria, ou contenta-se em saber ler apenas cifras de músicas de acordes simples. Se você quer apenas arranhar um instrumento em casa como hobbie, tudo bem não conhecer teoria, mas se você pretende atuar em um grupo (seja uma banda de amigos, igreja ou profissionalmente) ou pretende tocar para outras pessoas ouvirem, recomendo fortemente que você se preocupe em estudar teoria.

Se você está lendo esse post, é provável que você já esteja buscando isso, mas caso você ainda ache desnecessário, deixe-me colocar apenas alguns motivos para que você se convença da necessidade de estudar música:
  • A música é uma linguagem universal. Independente do país em que você estiver, você conseguirá se comunicar com as outras pessoas com quem estiver tocando junto.
  • A medida que você conhece mais teoria, você consegue tocar músicas mais complexas, preparando-se para qualquer tipo de música que você precise tocar.
  • Você se torna menos dependente de materiais externos, como livros e internet. Por exemplo: entendendo a teoria de construção de acordes, você saberá montar um acorde novo que você não conheça, sem ter que buscar em algum material como fazê-lo.
  • Você consegue incluir outros músicos. É comum para quem está começando a estudar algum instrumento erudito, como flauta e violino, não conseguir tocar em bandas, onde toda a linguagem musical se dá por cifras e improviso. Caso a banda tenha um músico mais experiente que saiba escrever partitura, ele poderá escrever as linhas melódicas que esses instrumentos precisam tocar.
  • Entendendo as "regras", você entende como quebrá-las, e fazer a música do seu próprio modo. Por exemplo, você pode re-harmonizar uma música, dando-lhe um "ar" totalmente novo, conforme o seu gosto musical.
Enfim, existem muitos outros motivos, mas espero que esses sejam suficientes. Vale dizer também que teoria não é apenas para instrumentistas. Cantores precisam conhecer tanto de teoria musical quanto qualquer instrumentista. É um grande erro dos vocalistas pensarem que não precisam saber teoria para cantar. A falta de conhecimento teórico os torna mais limitados e dependentes



Nesse primeiro post, minha intenção foi fazer uma pequena introdução à série de posts que pretendo fazer sobre teoria musical. Para quem quiser aprender um pouco de teoria, espero que esse material lhe ajude nessa  jornada de aprendizado. Para os mais experientes, por favor, sintam-se à vontade para criticar qualquer ponto ou fazer comentários que complementem o conteúdo, afim de gerar um material de melhor qualidade.

No próximo post vou abordar alguns conceitos básicos de música. Se você não entendeu alguma palavra ou conceito nesse primeiro texto, no próximo post pretendo fazer um glossário para ajudá-lo no "musiquês".

atenciosamente,

Renan Alencar de Carvalho

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A cosmovisão cristã e as artes

Fonte: Ultimato

A cosmovisão cristã e as artes

Todas as coisas foram 
criadas por ele e para ele. 
Colossenses 1.16b NVI

"Quando se escreve sobre artes em um veículo de leitura protestante, sem citar artistas do meio protestante, corre-se o risco de ser criticado por vários irmãos de fé. Estes se esquecem que Deus é soberano. Não sobre uma ou duas coisas, mas sobre todas as coisas. Não é possível ser cristão nos eventos eclesiásticos e possuir outro modo de vida no dia-a-dia da família, trabalho, educação, entretenimento.

Deus reina sobre tudo e, consequentemente, sobre toda arte. Quando traço um comentário sobre arte não-cristã, minha visão deve partir da “lente bíblica”, a chamada “cosmovisão cristã”. Não devo desviar meu olhar, como cristão, de coisas que julgo não “serem de Deus”. Tudo é passível de julgamento a partir da cosmovisão cristã, seja para críticas sobre aquilo que entendemos ser errado, seja para elogios necessários às obras e artistas.

A partir dessa leitura cristã posso admirar, por exemplo, canções cujas letras não trazem termos “evangélicos”, mas que possuem em seu cerne valores do Reino de Deus.
A crítica sobre poluição no mar de A Mancha, canção de Lenine e Lula Queiroga (gravada no CD Labiata, 2008) tem em si valores do Reino, sem necessariamente falar a palavra “Deus” e sem seus autores se declararem “músicos evangélicos”:

A mancha vem comendo pela beira
O óleo já tomou a cabeceira do rio
E avança
A mancha que vazou do casco do navio
Colando as asas da ave praieira
A mancha vem vindo
Vem mais rápido que lancha
Afogando peixe, encalhando prancha
A mancha que mancha,
Que mancha de óleo e vergonha
Que mancha a jangada, que mancha a areia
Negra praia brasileira
Onde a morena gestante
Filha do pescador
Derrama lágrimas negras
Vigiando o horizonte
Esperando o seu amor


Falta engajamento e liberdade dos artistas cristãos em relação a essa visão de mundo ecológica e que escrevam, pintem, cantem, dancem, atuem e explorem, enfim, a temática declarando: Deus é soberano sobre a natureza e devemos cuidar dela! Não só ecologia, mas falta adentrar com a arte cristã na política, economia, problemas sociais, história, saúde, entre tantos e tantos assuntos. Com algumas exceções, por vezes as letras das canções feitas por cristãos são extremamente alienantes e distantes da realidade contextual brasileira, o que não é, segundo uma cosmovisão cristã, algo correto.

Sejamos cristãos em qualquer situação, tempo e espaço, como Cristo nos ensinou. Coerência é fundamental em nossos passos. Caminhemos."


Texto deSérgio Pereira .

Sérgio Pereira é músico, historiador, educador, escritor e revisor pedagógico de História. Seu trabalho musical principal é o Baixo e Voz, que já conta com 21 anos, quatro CDs e um DVD e CD ao vivo a serem lançados este ano. É mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sua dissertação versa sobre o compositor Lenine e o hibridismo musical brasileiro.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Nossa Música Brasileira



Quem tem ouvidos para ouvir, ouça
Será uma festa da alforria, com participação de nomes representantes do movimento de resgate da cultura musical brasileira.
Data:
  • 31 de Agosto a 02 de Setembro
Músicos:
  • Carlinhos Veiga e banda
  • Carol Gualberto e banda
  • Stenio Marcius
  • Edilson Botelho
  • João Alexandre
  • Priscila Barreto
  • Felipe Silveira
  • Jorge Camargo
  • Thiago Viana
  • Banda de boca
  • E muito mais...
Planos de Pagamento:
  • Plano A – R$ 210,00: sinal de R$ 80,00 (inscrição) até 10/05 + restante no evento
  • Plano B – R$ 220,00: sinal de R$ 80,00 (inscrição) até 10/07 + restante no evento
  • Plano C – R$ 230,00: Após 10/07 (se ainda houver vagas)
10% para grupos acima de 10 pessoas
Evento:
  • Início: Sexta-feira, 31/08 com jantar das 19h às 20h30;
  • Término: Domingo, 02/09 após o almoço.